artigo - O Chile e o Choque de Internacionalismo
por Gustavo Grisa
Há tempos que lideranças latino-americanas, em reservado, torcem o nariz para o sucesso do Chile. Em alguns casos, esse despeito é até justificado: se nos anos 50/60/70 o Chile era um porto seguro para a intelectualidade latino-americana, nos anos seguintes sofreu com o regime de Pinochet e uma postura no mínimo inusitada em relação a seus irmãos de continente. É mais do que conhecida a colaboração do regime de Pinochet com a Inglaterra no episódio das Malvinas. Há tempos também o Chile polidamente ignora grupos pouco práticos e "cumbres" folclóricas ao estilo Grupo do Rio, Comunidade Sul-Americana em Cuzco e faz acordos bilaterais, comerciais, reais, com quem bem entende.Traz a mal-disfarçada empáfia dos prósperos.Em outros casos, não: o que as lideranças econômicas chilenas souberam fazer foi vestir-se de pragmatismo e alterar o padrão de desenvolvimento do país nos últimos 20 anos, em meio a um processo de democratização muitas vezes traumático. Como principal diferença, uma visão abertamente internacionalista, contrastando com o ranço nacionalista e estatizante de seus vizinhos.
Como país pequeno, diz a boa teoria econômica que lhe restariam, é bem verdade, poucas opções senão a desvalorização da moeda para fomentar exportações e voltar seu setor produtivo para o setor externo. Em vez de commodities e quinquilharias tropicais, especializou-se em produtos agroindustriais de alta qualidade e valor agregado, como vinhos, frutas e pescados. Mais recentemente, biotecnologia e software.
Foi mais adiante: buscou acordos comerciais com países asiáticos, desenvolveu a logística de seus portos e soube aproveitar a janela para o Pacífico. Apresenta-se com naturalidade como um parceiro comercial preferencial junto aos Estados Unidos, pois todos os indicadores de Risco Político indicam o Chile como um país com níveis de operação para investimentos sem paralelo na América Latina. Mais do que a inveja pelo sucesso, existe um desconforto pelo modelo adotado: privatização e internacionalismo. O movimento mais recente é a notícia da intenção oficial chilena de acelerar o ensino de língua inglesa à população, a língua já há muito tempo utilizada em todas as transações internacionais, gostemos ou não. Esse pragmatismo é visto com ranço pelos ideólogos de botequim da América Latina afora, particularmente em alguns pontos decadentes do nosso Brasil.
A lição que fica é a lição do internacionalismo sem medo, do pluralismo e capitalismo sem pruridos. Naturalmente o que é bom para o Chile nem sempre é bom para o Brasil. Porém, em termos de desenvolvimento regional as lições são valiosas.Particularmente faço parte de uma geração de então (talvez jovens ao extremo) economistas gaúchos (hoje, a maioria soltos pelo Brasil e mundo afora) que acreditaram em algum momento em meados da década de 90 que algumas regiões brasileiras poderiam atingir um nível de vida e cultura próximo ao do Chile, principalmente pela aplicação do choque de internacionalismo e investimentos internacionais, trazendo intercâmbio econômico e cultural de verdade à nossa alma provinciana. Ledo e Ivo engano (desculpe-me o ilustre acadêmico). Internacionalismo, cosmopolitismo e desenvolvimento baseado em grandes projetos internacionais de exportação era algo para que não estávamos e talvez ainda não estejamos bem preparados. Às vezes penso que o que gostamos mesmo é de uma boa dor de cotovelo...o escapismo político (a culpa é de outros, é de alguém, são tantos os ódios...) aparece como uma das formas mais naturais de apaziguar as frustrações de não fazermos nosso `tema de casa" corretamente.
Mas, voltando à prática, choque de internacionalismo funciona. Pena que temos que esperar tanto tempo para constatar o óbvio, e volta e meia deliciar-nos com os pratos requentados que são tão pouco diante das possibilidades desse mundo, vasto mundo...
Gustavo Grisa é economista e possui a página: www.gustavogrisa.com.br
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