artigo - Virando o jogo nas empresas
por Ivelise Amato
Vai começar a partida. O time está pronto para entrar em campo. Ele tem que vencer! Do seu resultado depende a sobrevivência de todos: do treinador, dos jogadores, enfim, do próprio time.Os jogadores são bons, são competentes, sabem o que fazer com a bola; pode-se até dizer que é um time de craques.
Na semana que antecedeu o grande jogo, o treinador resolveu mexer com os brios dos jogadores, considerando que assim poderia motivá-los: a cada falha, ele parava o treino e mostrava a todos o erro cometido, colocando o "culpado" abaixo de zero. Repetiu várias e várias vezes que, se o time adversário era de "pernas de pau", eles estavam se mostrando mais "pernas de pau" ainda, errando daquela forma; mais, que o melhor nome para o time seria "Piratas", pois não conseguiam enxergar o gol - parecia até que tinham um olho só! Além disso, passou os video-tapes dos treinos e pediu para todo o grupo apontar as falhas dos outros. Cada um teve sua vez de ficar na berlinda. É claro que saíram algumas discussões entre eles, pois nem todos concordavam sobre as avaliações do que era erro ou não: acusavam-se mutuamente de displicência, de falta de solidariedade, de individualismo, de falta de visão de conjunto etc.
Chega enfim o dia do grande jogo. O árbitro apita e... bola rolando. Os jogadores estão nervosos; as jogadas não saem. O goleiro, que teve que salvar o time algumas vezes, não pára de discutir com a defesa; os atacantes reclamam com os armadores que a bola não está chegando redonda; o meio de campo está perdido, fica tocando bola o tempo todo e briga com os atacantes, pois eles nunca estão posicionados para receber a bola; de vez em quando, alguém tenta resolver tudo sozinho, pois acha que não adianta passar a bola para um companheiro; e daí por diante. A coisa piora quando o adversário marca o primeiro gol: a busca pelos culpados tira ainda mais a concentração do time. Ainda mais nervosos, passam a parar as jogadas com faltas seguidas e cada vez mais violentas, até que um dos zagueiros é expulso. E o time adversário continua brilhando... Vence a partida por 5 a 0, a maior goleada que aquele time de craques já sofreu na vida.
Quem perdeu o jogo? Os jogadores ou o treinador?
Aqueles que entendem de futebol provavelmente responderão: os jogadores. O time jogou mal, estava desestruturado, sem criatividade, sem "garra", sem entrosamento e muito nervoso.
Tudo isso pode ser verdade; mas tudo isso pode ter sido causado pela atitude do treinador na semana que antecedeu o jogo.
Sentindo seu cargo ameaçado e pressionado pela necessidade da vitória, ele decidiu que a melhor forma de motivar os jogadores seria passando para eles essa pressão, ressaltando seus defeitos e suas falhas e valorizando seus pontos negativos. Com isso, ele mexeu profundamente com sua auto-imagem, auto-estima e auto-confiança, deixando-os inseguros, desconfiados, tensos. Cada um ficou mais preocupado com o seu próprio papel - ou melhor, com seu próprio desempenho individual - do que com o resultado grupal. Na sua mente, eles já estavam derrotados antes de entrar em campo, pois nada do que faziam parecia certo: o treinador nunca estava satisfeito. Sentiam-se diminuídos, desvalorizados, insatisfeitos, desmotivados - exatamente o contrário daquilo que o treinador pretendia.
Alguém já viu este mesmo filme? Não, não estou falando de futebol; estou falando de empresas.
Quantos talentos, quanta capacidade, quanta competência, quanta "garra", quanto conhecimento é desperdiçado dentro das empresas por causa de comportamentos equivocados, por parte dos profissionais ou por parte das gerências? Por conta de uma visão que privilegia a "perspectiva pessoal" ao invés da "eficácia coletiva"?
A maioria dos profissionais e dos gerentes sabe exatamente o que e como fazer para trabalhar eficazmente, com excelência. Quando não o fazem, é porque se instalaram, na cultura empresarial e, por decorrência, no comportamento manifesto dos colaboradores, atitudes de insegurança, desconfiança, individualismo, conformismo. É quando as pessoas dizem, não através de palavras, mas através de atos, que estão derrotadas antes mesmo de o jogo começar. É quando o desânimo, a indiferença pelos resultados obtidos, a ausência de recompensas e de elogios, a valorização do erro e a busca pelos culpados minam a auto-imagem, auto-estima e auto-confiança dos colaboradores, substituindo o clima de aprendizagem, motivação, solidariedade e otimismo que leva a resultados positivos. É quando os colaboradores "não fazem mais que a sua obrigação", ou seja, o mínimo necessário para garantir seu emprego, bovinamente resignados a suportar seu fardo, esperando ansiosamente o horário de saída no fim do dia e o dia do pagamento no fim do mês...
Será que é para isso que o trabalho existe? Somos ainda prisioneiros daquela interpretação bíblica do "ganharás teu pão com o suor do teu rosto" - ou seja, o trabalho é o castigo pelo "pecado"? E por isso devemos tornar o trabalho algo que nos causa desgaste, stress, tensão, insatisfação e desequilíbrio?
Chega dessa interpretação ideologicamente equivocada! O trabalho deve ser um espaço de libertação, de realização do melhor das capacidades humanas, tanto intelectuais quanto emocionais e espirituais. E isso significa que os treinadores - os gerentes - devem saber como extrair dos colaboradores esse melhor, assim como os profissionais devem saber manifestar os seus talentos. Todos têm que jogar para o time - ou trabalhar pelos mesmos resultados.
Colocando em campo toda a sua habilidade, inteligência, energia, criatividade, solidariedade, liderança, harmonia e emoção, gerando a motivação necessária para virar o jogo!
Ivelise Amato é economista, professora universitária e possui a página:
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