artigo - Ética nos Negócios: Uma Questão de Sobrevivência
por Walter Barelli
Embora seja uma prática relativamente nova nas empresas brasileiras, a responsabilidade social tem freqüentado a mídia com certa pompa - o que é bastante positivo, pois a divulgação estimula a adesão aos novos princípios, seja porque valoriza as companhias que já aderiram a eles, seja porque sinaliza um futuro nada promissor para as não-éticas. Os dados que emergem desta ou daquela fonte, porém, indicam que a maior parte das companhias ainda não pratica responsabilidade social profissionalmente, concebida como projeto integrado ao trabalho das corporações, com orçamentos específicos, metas definidas e resultados mensurados a cada período. Predominam ações isoladas, muitas vezes filantrópicas. Aos poucos, porém, é certo que o Brasil seguirá os passos dos países desenvolvidos, onde, por iniciativa espontânea das empresas ou por pressão da sociedade, a responsabilidade social já está instituída.Na Europa e nos EUA, as grandes companhias, especialmente, entenderam que neste mundo globalizado, onde a informação é cada dia mais veloz e democrática, os mercados mais interdependentes e o capital mais internacional, a ética nos negócios está se tornando questão de sobrevivência. Os grandes investidores já rejeitam participar de empresas com histórico de desrespeito aos direitos humanos ou ao meio ambiente. E multiplicam-se os fundos de investimentos em empresas que comprovam boa conduta ou vão além, aplicando parte de seus lucros em atividades que ajudam a melhorar a qualidade de vida de seus funcionários e da comunidade em geral. Naqueles países, ainda, parte dos consumidores já ignora nas gôndolas os produtos de empresas suspeitas e aceita até pagar mais pelos fabricados por companhias idôneas.
No Brasil, já há pelo menos um fundo de investimento entre as empresas socialmente responsáveis e uma instituição financeira oferece avaliação de companhias para investidores estrangeiros interessados em aplicar recursos em empresas éticas. Os especialistas calculam que cerca de 80 companhias brasileiras atualmente divulgam o Balanço Social. E, de acordo com vários artigos veiculados na mídia, das 400 companhias associadas ao Instituto Ethos, 73 preencheram e remeteram à entidade no ano passado o formulário Indicadores Ethos, questionário com 155 perguntas encadeadas estrategicamente para medir o grau de responsabilidade social das empresas em relação a vários temas, que englobam de funcionários e fornecedores a comunidades, governos e meio ambiente. Os números são modestos e as informações disponíveis indicam que ainda há muito caminho a percorrer.
O item do Indicadores Ethos relativo à diversidade do quadro de funcionários, que oferece a medida da discriminação dentro das empresas, contabilizou as notas mais baixas, com média 3, para uma pontuação que varia de zero a 10. Outra fonte, o Ibase, reforça a idéia de que as companhias nacionais discriminam na hora de contratar. Das 34 empresas que publicaram o Balanço Social segundo o modelo da entidade no ano passado, apenas oito responderam o campo "número de mulheres", que representavam apenas 36% dos empregados e, em seis delas, somente 5% dos cargos de chefia. Por enquanto, mostram os estudos do Ethos, as corporações investem sobretudo nos temas comunidade e consumidor, o que na verdade é fácil depreender das ações divulgadas. Se ajudar crianças e comunidades carentes - o que é louvável e necessário ainda mais num país como o nosso - proporciona ganhos de imagem, tratar bem o consumidor pode simplesmente evitar perdas nesse campo. Nesse caso, a proteção do Código de Defesa do Consumidor, legislação bastante avançada e amplamente conhecida pela população, é a peça chave para compreendermos porque as companhias se dedicam com mais afinco ao tema. Já a falta de consciência (ou de boa vontade) em relação ao meio ambiente é mais flagrante. Embora algumas poucas empresas mantenham programas excelentes, a nota média do Ethos para o tema foi de 3,7.
Segundo a consultora da entidade, Vivian Smith, as companhias não levam em conta, por exemplo, o impacto ambiental de sua instalação, como o gerado por suas frotas de veículos (poluição e intensificação do tráfego), pelo alto consumo de energia elétrica ou o excesso de lixo produzido. Sem falar em impactos sociais, como a pressão sobre a demanda de equipamentos públicos ou a desestabilização do comércio dos arredores. A seleção criteriosa dos fornecedores, para assegurar a responsabilidade social em toda a cadeia produtiva, é pouco comum e as relações das empresas com os governos, deduz-se do estudo, continuam promíscuas. "As empresas têm de participar, fazer parcerias com os governos, mas com transparência", diz a consultora. Em contrapartida, as iniciativas vêm ganhando em qualidade. Bom exemplo é o da Fundação Banco do Brasil, que lança esta semana o programa Banco de Tecnologias Sociais, para disseminar projetos de baixo custo, fácil aplicação e alto impacto na sociedade - o programa já dispõe de 128 soluções premiadas pela Fundação este ano.
A prática planejada da responsabilidade social é, portanto, incipiente no Brasil, mas aumenta velozmente em quantidade e qualidade. Também cresce o cerco às companhias irresponsáveis. A discriminação de portadores de deficiência, por exemplo, já é condenada no Brasil, como indica pesquisa de 2000 do Instituto Indicator , segundo a qual a primeira condição do consumidor para se tornar cliente de determinada empresa é que seus quadros incluam esses trabalhadores. E mesmo as ações passadas pesam implacáveis sobre a imagem das corporações. Um exemplo próximo é o da Shell. O jornal inglês The Guardian, em recente edição (de agosto) clama pela exclusão da companhia do Ethics Index of the London Stock Exchange - que agrupa empresas promotoras de boas práticas gerenciais - por conta da poluição do terreno de sua antiga fábrica de pesticidas em Paulínia, SP, entre as décadas de 70 e 80, que contamina ainda hoje a população local. A Shell agora corre atrás do prejuízo, mas fica o exemplo que não deve ser seguido.
Walter Barelli é Deputado Federal, economista, professor da Unicamp, Ex Ministro do Trabalho, ex Secretário de Empregos e Relações do Trabalho nos Governos Mário Covas e Geraldo Alkminn e Diretor Técnico do DIEESE.
Copyright 2006 - 2010, www.inteligenciacompetitiva.pro.br. Todos os Direitos Reservados
Design by ON-LINE Planets
Design by ON-LINE Planets

